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A geração que pode ser qualquer coisa… e por isso tem dificuldade de escolher

Nunca os jovens tiveram tantas possibilidades diante de si.

Há algumas décadas, a escolha profissional costumava seguir caminhos relativamente previsíveis. Muitas pessoas seguiam a profissão dos pais, escolhiam entre um número limitado de cursos superiores ou buscavam oportunidades disponíveis na própria região. O mercado era mais estável, as profissões mudavam lentamente e a expectativa de carreira era relativamente linear.

Hoje, o cenário é completamente diferente.

A nova geração cresceu em um mundo conectado, globalizado e em constante transformação. Milhares de cursos estão disponíveis na internet. Novas profissões surgem todos os anos. A inteligência artificial cria oportunidades e elimina funções ao mesmo tempo. O trabalho remoto permite atuar para empresas de qualquer lugar do planeta. Nunca houve tantas possibilidades.

Paradoxalmente, nunca houve tantos jovens inseguros sobre qual caminho seguir.

A chamada Geração Z, formada por jovens nascidos entre meados da década de 1990 e o início da década de 2010, é frequentemente descrita como indecisa, ansiosa ou perdida profissionalmente. Mas será que o problema está nos jovens? Ou no fato de estarem vivendo no momento mais complexo da história para construir uma carreira?

Essa pergunta vem despertando o interesse de pesquisadores, educadores e especialistas em comportamento em diversas partes do mundo.

O excesso de opções também pode ser um problema

Durante muito tempo acreditou-se que mais opções significavam automaticamente mais liberdade e felicidade. No entanto, estudos da psicologia comportamental passaram a demonstrar que o excesso de escolhas pode gerar exatamente o efeito contrário.

O psicólogo norte-americano Barry Schwartz, autor do livro O Paradoxo da Escolha, tornou-se conhecido ao defender que uma quantidade excessiva de opções pode aumentar a ansiedade, o medo de errar e a dificuldade de tomar decisões.

Segundo Schwartz, quando existem poucas alternativas, a decisão tende a ser mais simples. Mas quando as possibilidades parecem infinitas, surge a sensação de que sempre pode existir uma escolha melhor.

Essa lógica se encaixa perfeitamente na realidade da Geração Z.

O jovem de hoje não escolhe apenas entre medicina, engenharia ou administração. Ele pode optar por dezenas de áreas tecnológicas, profissões digitais, empreendedorismo, produção de conteúdo, mercado financeiro, design, marketing digital, desenvolvimento de software, análise de dados, inteligência artificial e inúmeras outras possibilidades que sequer existiam para seus pais.

O resultado é um fenômeno cada vez mais comum: a paralisia diante das escolhas.

A geração mais informada da história

Outro paradoxo chama a atenção.

Nunca foi tão fácil aprender.

Plataformas digitais oferecem cursos gratuitos, universidades disponibilizam conteúdos online e especialistas compartilham conhecimento diariamente nas redes sociais. Um jovem com acesso à internet pode aprender mais em poucos meses do que muitas pessoas tinham acesso durante anos no passado.

Mas informação não significa necessariamente clareza.

Uma pesquisa global da Deloitte mostrou que carreira, estabilidade financeira e perspectivas futuras estão entre as maiores preocupações da Geração Z. Mesmo com acesso a mais conhecimento, muitos jovens relatam insegurança em relação ao próprio futuro profissional.

Essa insegurança não surge da falta de informação.

Muitas vezes ela surge justamente do excesso.

São tantas opiniões, tendências, previsões e possibilidades que se torna difícil identificar qual caminho faz sentido individualmente.

A comparação nunca foi tão intensa

Existe ainda um fator que gerações anteriores não enfrentaram na mesma intensidade: a comparação permanente.

Enquanto um jovem dos anos 1980 ou 1990 comparava sua trajetória com colegas da escola ou da vizinhança, a Geração Z se compara diariamente com milhões de pessoas.

As redes sociais exibem empresários de 22 anos, influenciadores milionários, programadores trabalhando para empresas internacionais, criadores de conteúdo viajando pelo mundo e histórias de sucesso que parecem acontecer em velocidade extraordinária.

O problema é que as redes mostram os resultados, mas raramente mostram os erros, os fracassos e os anos de construção que vieram antes.

Isso cria a sensação de que todos estão avançando mais rápido.

E quando todos parecem estar avançando, qualquer dúvida pessoal passa a ser interpretada como atraso.

O medo de escolher errado

Para muitos jovens, a dificuldade não está em escolher.

Está em escolher errado.

A velocidade das mudanças tecnológicas aumentou essa preocupação. Profissões que hoje parecem promissoras podem sofrer transformações profundas nos próximos anos. A inteligência artificial passou a ocupar espaço em áreas que até pouco tempo eram consideradas seguras.

Diante desse cenário, muitos estudantes sentem que precisam tomar uma decisão perfeita.

Mas a realidade do mercado mostra algo diferente.

As carreiras modernas raramente seguem trajetórias lineares. Mudanças de área, especializações, novos cursos e adaptações fazem parte da vida profissional de grande parte dos trabalhadores.

A experiência continua sendo a melhor resposta

Se existe uma conclusão recorrente entre especialistas em carreira, ela é simples: ninguém descobre sua vocação apenas pensando sobre ela.

É preciso experimentar.

Nesse sentido, estágio, aprendizagem e experiências práticas ganham importância ainda maior.

Segundo o presidente da ABRE, Fernando Linschoten, muitos jovens acreditam que precisam ter certeza absoluta antes de dar o primeiro passo.

“Uma das maiores armadilhas é acreditar que é preciso descobrir toda a carreira antes de começar. A realidade mostra exatamente o contrário. Grande parte das pessoas descobre suas aptidões durante a própria trajetória profissional”, afirma.

O contato com ambientes de trabalho, empresas e diferentes áreas permite que o jovem compreenda melhor seus interesses, habilidades e objetivos.

Muitas vezes, a resposta não surge antes da experiência.

Surge por causa dela.

O desafio não é saber tudo

Talvez a maior diferença entre a Geração Z e as gerações anteriores não esteja na capacidade, na inteligência ou no acesso ao conhecimento.

Talvez esteja na complexidade do mundo em que vivem.

Nunca houve tantas opções.

Nunca houve tanta informação.

Nunca houve tantas possibilidades.

Mas também nunca houve tantas dúvidas.

A geração que pode ser qualquer coisa enfrenta um desafio inédito: aprender a escolher.

E talvez a maturidade profissional não comece quando alguém encontra todas as respostas.

Mas quando entende que construir uma carreira é, acima de tudo, um processo de descoberta contínua.

Redação ABRE

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