Pesquisas recentes mostram que a nova geração continua valorizando o trabalho e deseja crescer profissionalmente. O que mudou são as expectativas em relação ao que uma empresa deve oferecer no início dessa trajetória.
“Na minha época, a gente começava por baixo.” A frase atravessa gerações e costuma reaparecer quando o assunto é primeiro emprego, expectativa salarial ou a dificuldade de algumas empresas em atrair e manter profissionais mais jovens. Por trás dela existe uma percepção bastante difundida: a de que as novas gerações teriam menos disposição para começar em posições iniciais, realizar tarefas mais simples ou esperar alguns anos para crescer profissionalmente. Mas pesquisas recentes sobre juventude e mercado de trabalho sugerem que a realidade é mais complexa. Talvez os jovens não tenham deixado de aceitar o começo de uma carreira. O que mudou foi aquilo que eles esperam encontrar nesse começo.
Uma pesquisa nacional divulgada pela Fundação Itaú em 2026, realizada com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva, ouviu 1.816 brasileiros de 16 a 29 anos, de diferentes classes sociais, escolaridades e situações profissionais. Os resultados mostram uma juventude que continua atribuindo enorme importância ao trabalho, mas que observa com atenção fatores que vão além da remuneração. O salário permanece no centro das decisões: 64% apontaram esse fator como decisivo na escolha de um emprego. Ao mesmo tempo, benefícios, perspectivas de carreira e um ambiente agradável também aparecem entre as prioridades. Um dos resultados mais reveladores é que 62% afirmaram que aceitariam ganhar menos para trabalhar em um ambiente mais saudável, com menos estresse e pressão psicológica.
Os números ajudam a colocar em perspectiva a ideia de que o jovem simplesmente “não quer começar por baixo”. A questão parece ser outra: ele quer entender o que aquele começo poderá proporcionar. Um cargo inicial, tarefas simples e uma remuneração compatível com quem ainda está aprendendo não são necessariamente o problema. A dificuldade surge quando o jovem não encontra aprendizado, orientação, reconhecimento ou qualquer perspectiva de desenvolvimento. Em outras palavras, ele pode aceitar começar no primeiro degrau, mas quer saber se existe uma escada.
A experiência continua sendo uma das maiores barreiras
Essa discussão fica ainda mais relevante quando se observa uma das principais dificuldades relatadas pelos próprios jovens. Na pesquisa da Fundação Itaú, 49% apontaram a falta de experiência prática como uma das barreiras para entrar no mercado, enquanto 90% consideraram a experiência prática importante para o desenvolvimento profissional. O dado expõe um paradoxo conhecido: muitas empresas procuram candidatos com experiência, mas o jovem depende justamente de uma primeira oportunidade para começar a construí-la.
É nesse ponto que estágio, aprendizagem profissional e vagas destinadas efetivamente a iniciantes ganham importância. A primeira experiência não deveria exigir que alguém chegasse pronto. Ela deveria proporcionar condições para que esse profissional fosse sendo formado. Aprender uma rotina, compreender a cultura de uma organização, lidar com prazos, receber feedback, comunicar dificuldades, conviver com profissionais mais experientes e assumir gradualmente novas responsabilidades são partes fundamentais dessa construção.
Para Daniel Machado, Coordenador Educacional do Instituto ABRE, existe uma diferença importante entre querer crescer rapidamente e não aceitar o processo de aprendizagem. “O jovem quer perceber que está evoluindo. No início da carreira, muitas tarefas serão simples e fazem parte desse aprendizado, mas ele precisa compreender o sentido daquele trabalho, receber orientação e enxergar que existe possibilidade de desenvolvimento. Quando percebe que está aprendendo, amadurecendo e conquistando novas responsabilidades, o começo deixa de ser visto como algo pequeno e passa a fazer parte de uma trajetória.”
A própria ideia de que a Geração Z espera promoções imediatas também merece ser relativizada. O Gen Z and Millennial Survey 2026, da Deloitte, mostra que apenas 25% dos integrantes da Geração Z pesquisados preferem uma progressão acelerada baseada em promoções rápidas. Outros demonstram preferência por um crescimento mais gradual ou aceitam movimentos profissionais laterais quando eles proporcionam experiências consideradas importantes para uma carreira de longo prazo. Deloitte — Gen Z and Millennial Survey 2026
O que aparece com força em diferentes levantamentos não é necessariamente a pressa pelo próximo cargo, mas a busca por desenvolvimento profissional. Uma pesquisa realizada com mais de 32 mil colaboradores da JBS mostrou que aproximadamente seis em cada dez profissionais de 15 a 30 anos participantes apontaram oportunidades de crescimento e desenvolvimento como prioridade na escolha de uma empresa. Crescer, nesse contexto, não significa obrigatoriamente subir rapidamente no organograma. Pode significar receber treinamento, aprender algo novo, participar de um projeto, ter contato com profissionais mais experientes, receber feedback ou assumir gradualmente responsabilidades maiores. Pesquisa da JBS sobre Geração Z e carreira
Por que os jovens deixam as empresas tão rapidamente?
Outro argumento frequente sobre as novas gerações é a menor permanência no emprego. Dados divulgados em 2026 indicaram que 38,2% dos trabalhadores brasileiros de 18 a 24 anos permaneciam menos de um ano no mesmo emprego. Entre aqueles de 25 a 29 anos, a proporção era menor, mas ainda relevante. Folha de S.Paulo — permanência dos jovens no emprego
A interpretação desse comportamento, porém, exige cuidado. Parte das saídas ocorre por iniciativa das próprias empresas e outra parcela está relacionada à procura por melhores condições e perspectivas profissionais. A pesquisa sobre juventudes da Fundação Itaú também identificou, entre jovens que já haviam trabalhado e pedido demissão, fatores relacionados ao tratamento recebido de superiores, excesso de carga e pressão. Portanto, permanecer pouco tempo em uma organização não significa automaticamente falta de comprometimento, assim como permanecer muitos anos não é, por si só, prova de satisfação ou desenvolvimento profissional.
Há ainda uma dimensão cultural que diferencia o início da carreira atual daquele vivido por gerações anteriores. O jovem de hoje acompanha diariamente centenas de trajetórias profissionais pelas redes sociais. Promoções, novos empregos, viagens, diplomas, empreendimentos e conquistas pessoais são transformados em conteúdo e exibidos continuamente. O começo da própria carreira deixa de ser comparado apenas com o colega de sala ou o vizinho e passa a disputar atenção com uma vitrine quase infinita de histórias de sucesso. Ao mesmo tempo, existem preocupações econômicas concretas. A pesquisa da Deloitte de 2026 mostrou que 55% dos integrantes da Geração Z pesquisados globalmente disseram ter adiado decisões importantes da vida por questões financeiras. Deloitte — pesquisa global sobre Geração Z e Millennials
Apesar disso, os dados brasileiros revelam uma juventude bastante otimista em relação ao futuro. Na pesquisa da Fundação Itaú, 68% disseram possuir planejamento profissional para a vida, 91% acreditam que sua situação financeira estará melhor nos próximos cinco anos e 88% esperam alcançar uma condição de vida superior à de seus pais. Fundação Itaú — Juventudes e o Mundo do Trabalho Esses números não descrevem uma geração que desistiu de construir carreira. Mostram jovens que desejam avançar e que, ao mesmo tempo, estão repensando quais condições consideram aceitáveis para chegar até lá.
Talvez, portanto, seja necessário mudar a pergunta. Em vez de questionar por que tantos jovens não querem “começar por baixo”, empresas também podem observar como estão estruturando as oportunidades destinadas a quem está começando. Existe orientação? O jovem recebe feedback? Aprende algo que poderá utilizar no futuro? Consegue compreender a importância das atividades que executa? Existe respeito na relação com a liderança? Há possibilidade de assumir novas responsabilidades ao longo do tempo?
Uma primeira oportunidade não precisa oferecer um cargo importante, um salário extraordinário ou uma promoção em poucos meses. Mas precisa oferecer algo essencial: a possibilidade real de crescer a partir dali. Todo profissional experiente já foi iniciante, todo gestor precisou aprender e toda carreira começou com alguém que ainda não dominava completamente aquilo que fazia. Talvez os jovens não tenham medo de começar por baixo. Talvez estejam apenas mais atentos para saber se aquele primeiro degrau realmente leva a algum lugar.
Fontes principais: Fundação Itaú — Juventudes e o Mundo do Trabalho (2026); Deloitte — Gen Z and Millennial Survey 2026; levantamento sobre permanência dos jovens no emprego repercutido pela Folha de S.Paulo; pesquisa da JBS sobre expectativas profissionais da Geração Z.
