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O jovem quer trabalhar. Então por que empresas e candidatos continuam sem se encontrar?

O Brasil vive um dos melhores momentos recentes do mercado de trabalho, empresas continuam abrindo vagas e milhões de jovens procuram oportunidades. Mesmo assim, de um lado ainda se ouve “não encontramos candidatos”; do outro, “não consigo uma oportunidade”. O que explica esse desencontro?

Há uma contradição acontecendo diariamente no mercado de trabalho brasileiro. Empresas anunciam vagas, mobilizam equipes de Recursos Humanos, publicam oportunidades nas redes sociais e, muitas vezes, terminam o processo reclamando da dificuldade para encontrar candidatos. Ao mesmo tempo, jovens enviam currículos, cadastram-se em plataformas, procuram o primeiro emprego ou estágio e relatam dificuldades para conseguir uma oportunidade. À primeira vista, parece que alguém está procurando no lugar errado. Na prática, o problema é mais complexo: empresas e candidatos estão no mesmo mercado, mas nem sempre estão conseguindo se encontrar.

O cenário econômico torna essa questão ainda mais interessante. O mercado formal brasileiro criou 921.645 postos de trabalho somente no primeiro semestre de 2026, segundo dados do Novo Caged divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Ao final de junho, o país ultrapassava 48 milhões de vínculos formais, com saldo positivo de empregos nos cinco grandes setores da economia. O IBGE também registrou taxas de desemprego historicamente baixas ao longo de 2026: no trimestre encerrado em abril, por exemplo, a taxa de desocupação estava em 5,8%, abaixo dos 6,6% registrados no mesmo período do ano anterior.

Os números mostram um mercado aquecido, mas isso não significa que a entrada seja igualmente simples para todos. Quando o olhar se volta especificamente para os jovens, aparecem obstáculos que ajudam a explicar por que uma vaga disponível e um candidato interessado nem sempre terminam em uma contratação.

A experiência que a empresa procura é justamente aquilo que o jovem ainda precisa construir

A pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, realizada pela Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva, ouviu 1.816 brasileiros de 16 a 29 anos em todas as regiões do país em 2026. Entre os entrevistados, 49% apontaram a falta de experiência como uma das principais dificuldades para conseguir emprego, enquanto 39% mencionaram a grande quantidade de pessoas disputando uma mesma vaga.

O dado revela um dos paradoxos mais antigos da entrada no mercado de trabalho. O jovem precisa de experiência para conseguir uma oportunidade, mas precisa justamente de uma oportunidade para adquirir experiência. Quando empresas transportam para vagas de entrada exigências típicas de profissionais que já possuem trajetória, o ponto de encontro fica ainda mais distante.

Isso ganha especial importância quando falamos de estágio. A finalidade de uma vaga de estágio não é encontrar um profissional pronto, mas proporcionar ao estudante uma experiência prática relacionada à sua formação. Conhecimentos técnicos são importantes, assim como interesse, responsabilidade, comunicação e disposição para aprender, mas exigir uma trajetória profissional extensa de quem está procurando justamente uma primeira experiência pode distorcer a própria finalidade desse tipo de oportunidade.

Ao mesmo tempo, o desafio não está apenas nas empresas. Há processos seletivos nos quais candidatos fazem a inscrição inicial, mas deixam de responder mensagens, não comparecem às entrevistas ou percebem posteriormente que horário, localização, atividades ou remuneração não correspondem ao que procuram. Para quem trabalha diariamente com recrutamento, a existência de candidatos cadastrados não significa necessariamente que todos estejam disponíveis ou interessados naquela oportunidade específica.

É nesse espaço entre “temos vagas” e “temos candidatos” que boa parte do problema acontece.

Salário importa, mas a decisão não termina nele

Outra transformação está naquilo que o jovem considera ao avaliar uma oportunidade. A mesma pesquisa da Fundação Itaú mostra que o trabalho continua ocupando um lugar central nos projetos de vida dessa geração, mas as escolhas profissionais passaram a envolver um conjunto mais amplo de fatores. Salário aparece com grande peso, porém ambiente de trabalho, perspectivas de crescimento, benefícios e qualidade das relações profissionais também influenciam a decisão.

Isso ajuda a explicar situações que, vistas apenas da perspectiva da empresa, podem parecer falta de interesse. Uma vaga pode existir e oferecer remuneração compatível, mas estar distante da residência ou da instituição de ensino do estudante. O horário pode coincidir com as aulas. As atividades podem não conversar com aquilo que o candidato deseja desenvolver. O processo seletivo pode ser demorado ou pouco claro. Em outros casos, o jovem pode simplesmente ter recebido outra proposta enquanto aguardava uma resposta.

Do outro lado, empresas também possuem necessidades legítimas. Existem horários a serem cumpridos, competências mínimas necessárias, atividades específicas e limites de orçamento. O desafio não está em eliminar critérios, mas em compreender quais deles são realmente indispensáveis e quais podem estar afastando candidatos que teriam capacidade de aprender.

Esse ajuste de expectativas se tornou tão relevante que, em 2026, a Junior Achievement Américas e a ManpowerGroup iniciaram em 15 países um estudo dedicado justamente a investigar por que vagas permanecem abertas enquanto jovens enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho. A pesquisa envolve jovens de 18 a 29 anos, empregadores e lideranças de Recursos Humanos, tratando o desencontro entre talentos e empresas como um problema que ultrapassa as fronteiras brasileiras.

Existe também um problema de acesso à oportunidade

Há outro dado da pesquisa da Fundação Itaú que merece atenção. Entre os jovens entrevistados, 96% acreditam que conhecer alguém dentro de uma empresa ou receber indicação de familiares e amigos ajuda a conseguir emprego, e 77% dos jovens que estavam trabalhando disseram ter conseguido a ocupação atual por meio de alguma indicação.

O número revela a importância das redes de relacionamento, mas também levanta uma questão sobre acesso. O jovem que possui familiares e conhecidos inseridos no mercado começa sua busca com uma rede de informações e contatos. Quem não possui essa estrutura depende mais de processos seletivos abertos, instituições de ensino, plataformas de vagas, programas de estágio e aprendizagem e organizações capazes de fazer essa ponte com as empresas.

É justamente nesse ponto que o recrutamento deixa de ser apenas divulgação. Publicar uma oportunidade não significa necessariamente fazê-la chegar às pessoas certas. Encontrar estudantes de determinado curso, em determinada cidade, disponíveis em determinado horário e interessados naquele conjunto específico de atividades exige estratégia de captação, relacionamento com instituições de ensino, banco de candidatos atualizado e comunicação adequada com o público jovem.

Da mesma forma, o candidato precisa compreender que procurar uma oportunidade também exige movimento. Manter cadastro e currículo atualizados, acompanhar mensagens, responder aos contatos dos recrutadores, comparecer às entrevistas e conhecer minimamente a vaga para a qual se candidatou são atitudes simples, mas decisivas para que o encontro aconteça.

O problema talvez não seja falta de vagas nem falta de jovens

Os dados do Ministério do Trabalho ajudam a dimensionar a complexidade dessa realidade. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil tinha 32,9 milhões de jovens de 14 a 24 anos. Desse total, 13,9 milhões estavam ocupados, enquanto 6,2 milhões não estavam trabalhando nem estudando, segundo o Diagnóstico da Juventude Brasileira, elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego a partir de bases como PNAD Contínua, RAIS e eSocial.

O mesmo levantamento também evidencia a rotatividade: mais da metade dos adolescentes ocupados permanecia menos de um ano no mesmo emprego. Isso mostra que conseguir entrar é apenas uma parte do desafio. Depois do encontro entre empresa e jovem, existe uma segunda questão igualmente importante: criar condições para que essa relação faça sentido para ambos.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes discussões do mercado de trabalho dos próximos anos. O Brasil não enfrenta simplesmente uma falta de jovens dispostos a trabalhar, nem é possível afirmar que todas as empresas estejam oferecendo oportunidades inadequadas. Existe, na verdade, uma série de pequenas distâncias entre os dois lados: experiência exigida, formação, localização, horário, remuneração, expectativa de carreira, comunicação, velocidade dos processos seletivos e acesso à informação.

Reduzir essas distâncias exige participação das empresas, dos próprios jovens, das instituições de ensino e das organizações que atuam conectando educação e mercado de trabalho.

Para as empresas, talvez seja necessário olhar novamente para as vagas de entrada e perguntar se todos os requisitos realmente precisam estar ali. Para os jovens, existe o desafio de compreender que a construção de uma carreira começa com aprendizado, responsabilidade e participação ativa nos processos seletivos. Para as instituições de ensino, aproximar estudantes da realidade profissional deixa de ser algo complementar e passa a fazer parte da preparação para o mercado.

E para o RH surge uma mudança importante: não basta mais esperar o candidato chegar. Recrutar jovens exige compreender onde eles estão, como procuram oportunidades, o que esperam do trabalho e como se comunicam.

No fim, talvez a pergunta “por que ninguém quer trabalhar?” seja tão insuficiente quanto “por que as empresas não dão oportunidades?”.

Os dados mostram que existem jovens querendo trabalhar e existem empresas querendo contratar. O desafio está justamente no espaço entre os dois.

É nesse espaço que o mercado de trabalho brasileiro ainda precisa construir melhores pontes.

Fontes principais: Ministério do Trabalho e Emprego — Novo Caged e Diagnóstico da Juventude Brasileira; IBGE — PNAD Contínua; Fundação Itaú — Juventudes e o Mundo do Trabalho, com apoio técnico do Datafolha e Instituto Locomotiva; Junior Achievement Brasil — estudo Talento jovem e empresas: oportunidades e desafios 2026.

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