Mãos suando, respostas que desaparecem da cabeça e a sensação de estar sendo avaliado a cada palavra. Para muitos jovens, chegar à entrevista de emprego ou estágio pode ser mais difícil do que enviar o currículo. O desafio para candidatos e recrutadores é não permitir que alguns minutos de ansiedade escondam um potencial que levaria meses para ser desenvolvido dentro da empresa.
O currículo foi selecionado. O telefone tocou. Do outro lado, veio a notícia esperada: a empresa quer marcar uma entrevista. O que deveria representar apenas uma conquista dentro do processo seletivo pode imediatamente despertar outra sensação — medo. O candidato começa a imaginar as perguntas, ensaiar respostas, pesquisar a empresa e pensar no que poderá dar errado. Para quem está buscando o primeiro emprego ou estágio e nunca participou de uma seleção, a insegurança pode ser ainda maior.
A ansiedade diante de uma entrevista não é um fenômeno incomum. A American Psychological Association (APA) chama atenção para a chamada ansiedade antecipatória, que pode surgir diante de acontecimentos futuros marcados por incerteza. Entre os exemplos apresentados pela entidade estão justamente transições importantes da vida, como conquistar o primeiro estágio ou emprego. A expectativa de conseguir uma oportunidade convive com o receio de não ser escolhido e com todas as consequências que o candidato atribui àquele resultado.
Outro levantamento ajuda a dimensionar a tensão que pode acompanhar a procura por trabalho. Em uma pesquisa com mais de 5 mil trabalhadores norte-americanos, o Indeed identificou que 27% apontavam a ansiedade relacionada à busca por emprego como o principal obstáculo para encontrar a oportunidade desejada. Entre os fatores associados estavam incerteza sobre o processo seletivo, medo da rejeição, dúvidas sobre as próprias habilidades e experiências negativas anteriores. Embora os dados sejam dos Estados Unidos e não devam ser automaticamente transferidos para a realidade brasileira, eles ajudam a demonstrar como a procura por uma vaga pode envolver muito mais do que simplesmente enviar um currículo.
A entrevista não é uma prova com respostas decoradas
Parte do medo começa pela maneira como a entrevista é imaginada. Para alguns candidatos, principalmente aqueles com pouca experiência profissional, o encontro com o recrutador parece uma prova oral: alguém fará perguntas e haverá uma resposta certa escondida em algum lugar. O candidato tenta descobrir antecipadamente o que o entrevistador “quer ouvir” e passa a decorar respostas para perguntas clássicas sobre qualidades, defeitos, objetivos profissionais e motivos para querer aquela vaga.
O problema é que uma entrevista de emprego não deveria ser uma competição para descobrir quem decorou melhor as respostas disponíveis na internet. Ela existe para permitir que empresa e candidato conheçam um ao outro. O recrutador procura compreender características como comunicação, interesse, postura, capacidade de aprendizado, disponibilidade e compatibilidade com as atividades da vaga. O candidato, por sua vez, também deveria utilizar aquele momento para entender o trabalho, a empresa, a rotina e aquilo que será esperado dele.
Isso é especialmente importante em processos seletivos para estágio e primeiro emprego. Um estudante não deveria entrar em uma entrevista acreditando que precisa demonstrar uma experiência profissional que ainda não teve. O estágio existe justamente para proporcionar aprendizado prático e desenvolvimento. Nesses processos, experiências acadêmicas, projetos realizados na faculdade ou na escola, cursos, trabalhos em grupo, atividades voluntárias e até situações cotidianas podem ajudar o recrutador a conhecer características do candidato.
Para Anderson Costa, Gerente de RH da ABRE, o nervosismo não deve ser interpretado isoladamente durante uma seleção. “É muito comum o jovem chegar nervoso, principalmente quando está participando das primeiras entrevistas da vida profissional. O papel do recrutador também é criar espaço para que essa pessoa consiga conversar e mostrar quem é. Em uma vaga de estágio, não estamos procurando um profissional pronto. Estamos avaliando interesse, comportamento, capacidade de aprender, comunicação e potencial de desenvolvimento.”
Preparação ajuda. Personagem, não.
O nervosismo tende a aumentar quando existe a sensação de não saber o que acontecerá. Por isso, preparação continua sendo uma das melhores formas de chegar à entrevista com mais segurança. Conhecer minimamente a empresa, reler as informações da vaga, lembrar quais atividades foram descritas e pensar em experiências pessoais ou acadêmicas que possam ser mencionadas durante a conversa ajuda a diminuir a imprevisibilidade. O Indeed também recomenda preparação prévia, pesquisa sobre a organização e prática de perguntas comuns como formas de lidar melhor com a ansiedade diante da entrevista.
Preparar-se, entretanto, é diferente de criar um personagem. Quando o candidato tenta apresentar uma versão artificialmente perfeita de si mesmo, a conversa pode perder espontaneidade e até gerar contradições. Não existe necessidade de responder imediatamente a todas as perguntas. Pedir alguns segundos para pensar, admitir que ainda não teve determinada experiência ou dizer que não conhece um assunto, mas tem interesse em aprender, pode ser muito mais coerente do que improvisar uma resposta apenas para evitar o silêncio.
Pontualidade, atenção às informações recebidas, postura respeitosa e interesse pela oportunidade continuam importantes, tanto presencialmente quanto nas entrevistas on-line. Mas pequenos sinais de nervosismo — uma pausa maior antes de responder, a voz inicialmente insegura ou a necessidade de reformular uma frase — não deveriam automaticamente eliminar alguém de uma seleção.
O recrutador também tem responsabilidade nessa conversa
Existe um segundo lado dessa discussão que merece atenção das empresas. Uma entrevista excessivamente intimidadora pode impedir justamente que o recrutador obtenha aquilo que procura: informações verdadeiras sobre o candidato. Quando a conversa é conduzida como interrogatório, com intenção de provocar desconforto ou “testar a pressão”, existe o risco de avaliar mais a capacidade de suportar aquela situação específica do que as competências realmente necessárias para a vaga.
Isso se torna ainda mais relevante quando a empresa está entrevistando adolescentes, estudantes ou jovens que estão buscando a primeira experiência profissional. É possível manter critérios, avaliar comportamento e fazer perguntas relevantes sem transformar o processo em uma situação hostil. Explicar brevemente como a entrevista funcionará, apresentar a vaga com clareza e permitir alguns minutos iniciais de conversa pode ajudar o candidato a demonstrar melhor suas características.
Pesquisas recentes também mostram que candidatos e empregadores nem sempre enxergam o processo seletivo da mesma maneira. Em levantamento global realizado em 12 países, com mais de 9 mil candidatos e empregadores, o Indeed identificou diferenças de percepção sobre habilidades, expectativas e etapas da contratação. Para o RH, isso representa um lembrete importante: selecionar não significa apenas avaliar quem está do outro lado da mesa. Também significa construir um processo capaz de revelar o melhor daquela pessoa.
Uma entrevista dura poucos minutos. Uma carreira pode durar décadas. É perfeitamente possível que um excelente futuro profissional não faça uma excelente primeira entrevista.
Por isso, talvez candidatos e recrutadores precisem entrar naquela sala — física ou virtual — com uma perspectiva diferente. Para o jovem, a entrevista não precisa ser encarada como um julgamento definitivo sobre sua capacidade. É uma conversa profissional na qual ele terá oportunidade de mostrar o que já desenvolveu e, principalmente, aquilo que está disposto a aprender. Para a empresa, o desafio é olhar além da resposta perfeita e perceber competências que ainda estão em formação.
No início da carreira, potencial nem sempre chega acompanhado de segurança, experiência ou discurso impecável. Às vezes, o melhor candidato da seleção também é aquele que está mais nervoso na sala.
Fontes: American Psychological Association (APA), conteúdos sobre ansiedade antecipatória e transições profissionais; Indeed, pesquisas e conteúdos sobre ansiedade em entrevistas e experiências de candidatos em processos seletivos.30
