Ferramentas de Inteligência Artificial já aceleram tarefas que antes consumiam horas de trabalho. Mas um levantamento internacional revela um paradoxo nas empresas: a produtividade aumentou, enquanto a sensação de sobrecarga continua — e, em muitos casos, ficou ainda maior.
Durante décadas, uma das grandes promessas da tecnologia foi devolver tempo às pessoas. Processos automatizados reduziriam tarefas repetitivas, sistemas tornariam operações mais eficientes e profissionais poderiam dedicar mais energia a atividades estratégicas, criativas e intelectualmente relevantes. A chegada da Inteligência Artificial generativa tornou essa promessa ainda mais concreta. Hoje, atividades como pesquisar informações, estruturar relatórios, analisar documentos, preparar apresentações, organizar dados ou produzir uma primeira versão de um texto podem ser realizadas em uma fração do tempo que exigiam poucos anos atrás.
Seria razoável imaginar que profissionais cercados por ferramentas capazes de acelerar tantas tarefas estivessem trabalhando com mais tranquilidade. Os dados, porém, apontam para uma realidade diferente. O estudo Workforce 2026, realizado pela Korn Ferry e repercutido pela Forbes Brasil, ouviu mais de 16 mil profissionais em 11 mercados e identificou que 52% dos entrevistados afirmam que as ferramentas de Inteligência Artificial aumentaram seu volume de tarefas, em vez de reduzi-lo. Mais de 60% também relataram acúmulo de funções ou crescimento significativo da carga de trabalho nos últimos dois anos.
No Brasil, a contradição aparece de forma ainda mais clara. Segundo os dados apresentados pela publicação, 63% dos profissionais brasileiros reconhecem ganhos de eficiência proporcionados pela IA, mas 47% afirmam estar ocupados demais para entregar resultados que consideram realmente relevantes. Em outras palavras, a tecnologia está ajudando as pessoas a executar tarefas mais rapidamente, mas essa velocidade nem sempre está se convertendo em mais tempo para pensar, planejar ou desenvolver trabalhos de maior qualidade.
O tempo economizado não necessariamente virou tempo livre
O fenômeno pode ser compreendido a partir de uma situação bastante simples. Se uma atividade que antes exigia uma hora passa a ser realizada em 15 minutos com auxílio de uma ferramenta tecnológica, teoricamente foram recuperados 45 minutos da jornada. A questão é o que acontece com esse tempo. Em uma organização, ele pode ser utilizado para planejamento, desenvolvimento profissional, análise de problemas mais complexos ou até para reduzir uma rotina excessivamente sobrecarregada. Em outra, porém, os mesmos 45 minutos podem simplesmente ser preenchidos por três ou quatro novas demandas.
É nesse ponto que produtividade e intensidade de trabalho começam a se confundir. Quando uma empresa descobre que determinada atividade pode ser concluída mais rapidamente, a tendência pode ser aumentar a quantidade de entregas esperadas daquele profissional. Respostas precisam chegar antes, relatórios podem ser produzidos em maior número e demandas que antes levariam dias passam a ser esperadas em algumas horas. A tecnologia reduz o tempo necessário para cada tarefa, mas a organização aumenta o número de tarefas realizadas no mesmo período.
O resultado é uma espécie de aceleração permanente. O profissional produz mais, recebe novas solicitações, responde com maior velocidade e termina o expediente com a mesma sensação de que faltou tempo. Nesse cenário, houve um ganho mensurável de eficiência, mas não necessariamente uma melhoria na experiência de trabalho.
A transformação também acrescenta uma nova responsabilidade à rotina profissional: aprender continuamente. As ferramentas mudam rapidamente, novos recursos são incorporados e empresas passam a esperar que suas equipes saibam utilizá-los. Isso significa que, além de realizar as atividades tradicionais de sua função, o trabalhador precisa acompanhar uma tecnologia em constante evolução e desenvolver critérios para saber quando utilizá-la, como conferir seus resultados e em quais situações ela realmente agrega valor.
Para Fernando Fischer, Diretor Executivo da ABRE, essa mudança merece atenção especial quando se pensa nos profissionais que estão entrando agora no mercado de trabalho. “O jovem que entra no mercado hoje encontra um ambiente muito mais rápido e tecnológico. Precisamos ensiná-lo a utilizar essas ferramentas, mas também a estabelecer prioridades, analisar informações e compreender que produtividade não significa simplesmente fazer cada vez mais coisas.”
A observação toca em uma competência que tende a ganhar importância em ambientes cada vez mais automatizados: a capacidade de estabelecer prioridades. Se a tecnologia torna possível produzir praticamente o tempo todo, saber distinguir o que é urgente, o que é importante e o que sequer precisa ser feito passa a ser tão relevante quanto dominar a própria ferramenta.
Fazer mais não significa necessariamente produzir melhor
Durante muito tempo, produtividade foi associada à capacidade de realizar uma quantidade maior de tarefas em menos tempo. A Inteligência Artificial leva essa lógica a um novo patamar porque amplia drasticamente a velocidade de determinadas atividades intelectuais. Mas essa transformação também obriga empresas e lideranças a discutirem qual será o destino da eficiência conquistada.
Se cada minuto economizado for automaticamente ocupado por uma nova demanda, a automação poderá criar organizações extremamente produtivas em quantidade e, ao mesmo tempo, profissionais permanentemente sobrecarregados. O desafio, portanto, deixa de ser apenas tecnológico e passa a ser também uma questão de gestão. Não basta fornecer novas ferramentas às equipes; é necessário rever processos, expectativas, prioridades e até a maneira como os resultados são avaliados.
Para profissionais em início de carreira, essa discussão é particularmente importante. Jovens que chegam agora às empresas provavelmente construirão toda a sua trajetória profissional em ambientes nos quais sistemas inteligentes estarão incorporados à rotina. Saber utilizar tecnologia será parte do trabalho, mas aprender a administrar atenção, avaliar informações, organizar prioridades e reconhecer limites poderá ser igualmente decisivo.
A promessa inicial da automação era liberar as pessoas de parte do trabalho repetitivo para que pudessem dedicar mais tempo às atividades que exigem julgamento, criatividade, relacionamento e pensamento estratégico. O avanço da Inteligência Artificial mostra que a primeira parte dessa promessa já começa a se concretizar: muitas tarefas realmente podem ser realizadas em menos tempo. Resta saber o que empresas e profissionais farão com o tempo recuperado.
A Inteligência Artificial pode nos ajudar a trabalhar mais rápido. O próximo desafio será descobrir se também conseguiremos trabalhar melhor.
Fonte principal: Forbes Brasil — IA prometia mais produtividade, mas entregou sobrecarga aos brasileiros
