Em um mercado que ainda cobra experiência de quem está tentando conseguir o primeiro emprego, a aprendizagem profissional aproxima educação e trabalho e mostra que a entrada de um jovem em uma empresa pode representar muito mais do que o preenchimento de uma vaga.
Conseguir o primeiro emprego continua sendo um dos grandes desafios da juventude. O paradoxo é conhecido: para conquistar uma oportunidade, muitas vezes é preciso demonstrar experiência; para adquirir experiência, porém, alguém precisa oferecer a primeira oportunidade. É justamente nesse intervalo entre a formação escolar e a vida profissional que programas de aprendizagem ganham relevância, ao permitir que adolescentes e jovens tenham contato com o ambiente de trabalho ao mesmo tempo em que recebem formação teórica e acompanhamento durante seu desenvolvimento.
O desafio não é exclusivamente brasileiro. Dados divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 2026 mostram que o desemprego juvenil global atingiu 12,4% em 2025, alcançando aproximadamente 67 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos. No mesmo período, cerca de 257 milhões de jovens no mundo não estavam trabalhando, estudando ou participando de programas de formação profissional. Os números ajudam a dimensionar uma questão que vai muito além da geração de vagas: criar oportunidades de entrada no mercado significa também preparar jovens para permanecer, crescer e construir uma trajetória profissional. OIT/Nações Unidas — cenário do emprego juvenil
No Brasil, uma pesquisa divulgada em 2026 pela Fundação Itaú, realizada com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva, ouviu 1.816 jovens de 16 a 29 anos e mostrou o peso que trabalho, formação e experiência profissional ocupam nos projetos dessa geração. Entre os resultados, 90% consideraram a experiência prática útil para o desenvolvimento profissional, enquanto 49% apontaram a falta dessa experiência entre as dificuldades encontradas para ingressar no mercado. Fundação Itaú — Juventudes e o Mundo do Trabalho
Aprender uma profissão também significa aprender a trabalhar
A aprendizagem profissional foi criada justamente para aproximar dois universos que precisam caminhar juntos: educação e trabalho. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o contrato de aprendizagem combina formação técnico-profissional com atividades práticas desenvolvidas na empresa. A modalidade atende, em regra, adolescentes e jovens de 14 a 24 anos incompletos, não havendo limite máximo de idade para pessoas com deficiência. Ministério do Trabalho e Emprego — Aprendizagem Profissional
A experiência, entretanto, não se resume ao aprendizado de uma ocupação. Para um jovem que está entrando pela primeira vez em uma organização, situações aparentemente rotineiras representam descobertas importantes: cumprir horários, organizar atividades, comunicar uma dificuldade, receber uma orientação, trabalhar em equipe, lidar com responsabilidades, compreender regras e conviver com pessoas de diferentes idades e experiências. São competências que dificilmente podem ser desenvolvidas apenas em sala de aula e que passam a compor aquilo que, alguns anos depois, será chamado de maturidade profissional.

Para Daniel Machado, Coordenador Educacional do Instituto ABRE, compreender essa dimensão é fundamental para que a aprendizagem cumpra seu papel. “O Jovem Aprendiz não deve ser visto apenas como alguém que está começando a trabalhar. Ele está vivendo um processo de formação. Na teoria, desenvolvemos conhecimentos e competências para o mundo do trabalho; na empresa, ele aprende a transformar esse conteúdo em prática, convivência, responsabilidade e autonomia. Quando esses dois ambientes caminham juntos, a aprendizagem realmente acontece.”
Essa combinação entre teoria e prática também permite que o jovem conheça profissões e ambientes que muitas vezes estavam distantes de sua realidade. Ao vivenciar atividades administrativas, comerciais, financeiras, logísticas ou de outras áreas compatíveis com seu programa, ele começa a identificar habilidades, interesses e possibilidades de carreira. A primeira experiência pode confirmar uma escolha profissional, despertar interesse por uma área até então desconhecida ou até mostrar que determinado caminho não corresponde às suas expectativas. Descobrir aquilo que não se quer fazer também faz parte da construção de uma carreira.
Para a empresa, a oportunidade também pode significar formação de talentos
A aprendizagem profissional costuma aparecer no debate empresarial associada principalmente à legislação. De acordo com as regras do programa, estabelecimentos enquadrados na legislação devem contratar aprendizes em percentual equivalente a 5% a 15% dos trabalhadores existentes em funções que demandem formação profissional, observadas as normas para cálculo da cota. A contratação assegura direitos trabalhistas específicos e deve estar vinculada a um programa de aprendizagem desenvolvido por entidade habilitada. MTE — regras e funcionamento do contrato de aprendizagem
Limitar o programa ao cumprimento dessa obrigação, entretanto, significa enxergar apenas uma parte de seu potencial. Ao receber alguém em início de carreira, a empresa tem a oportunidade de participar diretamente da formação de um futuro profissional. Conhecimento técnico pode ser desenvolvido, mas também comportamento, responsabilidade, comunicação, relacionamento e compreensão da cultura organizacional. O próprio Ministério do Trabalho e Emprego destaca a aprendizagem como instrumento de inclusão produtiva e de qualificação profissional, conectando a necessidade de oportunidades para os jovens à formação de trabalhadores para o mercado. Portal da Aprendizagem Profissional do MTE
Esse aspecto se torna especialmente relevante em um momento em que empresas de diferentes setores relatam dificuldades para encontrar determinados perfis profissionais. Em vez de procurar exclusivamente pessoas prontas no mercado, programas estruturados de entrada permitem que organizações participem da formação de talentos desde os primeiros passos, transmitindo conhecimento, acompanhando o desenvolvimento e identificando potenciais profissionais que poderão continuar crescendo dentro ou fora daquela organização.
Instituto ABRE: formação que acompanha a experiência profissional
É nesse encontro entre educação e experiência prática que se insere o trabalho do Instituto ABRE. No programa de Jovem Aprendiz, a formação teórica acompanha a vivência profissional, permitindo que os conteúdos trabalhados durante o curso dialoguem com situações que o jovem encontra no cotidiano da empresa. O objetivo não é simplesmente ensinar a executar uma função, mas contribuir para o desenvolvimento de competências que serão importantes ao longo da vida profissional.
Daniel Machado destaca que esse acompanhamento precisa considerar também o momento de vida de quem está ingressando no mercado. “Estamos trabalhando com jovens que ainda estão construindo identidade, autonomia e projetos de futuro. Por isso, a aprendizagem precisa orientar, desafiar e mostrar possibilidades. Uma boa primeira experiência profissional pode influenciar escolhas que acompanharão esse jovem por muitos anos.”
A dimensão dessa política pública também aparece nos números nacionais. Em julho de 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego informou que o país possuía mais de 4 mil entidades formadoras cadastradas para a oferta de programas de aprendizagem. Ao mesmo tempo, iniciativas de inclusão produtiva desenvolvidas por diferentes organizações mostram a demanda existente por oportunidades de entrada no mercado. O UNICEF, por exemplo, informou que sua estratégia 1 Milhão de Oportunidades (1MiO) ultrapassou a marca de um milhão de oportunidades de formação e empregabilidade destinadas a adolescentes e jovens e estabeleceu novas metas para ampliar oportunidades de aprendizagem, estágio e emprego formal. UNICEF Brasil — inclusão produtiva de adolescentes e jovens
Por trás de estatísticas, contratos e programas, porém, existe algo muito mais simples: todo profissional experiente um dia precisou começar. Antes do primeiro cargo, houve uma primeira tarefa. Antes da segurança profissional, houve dúvida. Antes de alguém ensinar, foi necessário aprender. E antes de uma carreira existir, alguém precisou oferecer uma oportunidade.
É por isso que o Jovem Aprendiz não deveria ser entendido apenas como uma alternativa para quem ainda não possui experiência ou como uma obrigação a ser cumprida pelas empresas. Quando bem estruturada, a aprendizagem cria uma ponte entre educação, trabalho e desenvolvimento, oferecendo ao jovem a possibilidade de construir experiência e à empresa a oportunidade de participar da formação de uma nova geração de profissionais.
A pergunta, portanto, não é apenas onde as empresas encontrarão os talentos de que precisarão no futuro. Talvez exista uma questão anterior e ainda mais importante: quantos desses talentos elas estão ajudando a formar hoje?
Fontes principais: Ministério do Trabalho e Emprego; Organização Internacional do Trabalho (OIT); Fundação Itaú — Juventudes e o Mundo do Trabalho; UNICEF Brasil.
